É um dos maiores matemáticos de sempre. E é português. A obra de Pedro Nunes está pela primeira vez completamente editada. Quatro volumes já estão disponíveis. Outros quatro estão a caminho. E isso fala-se por todo o mundo.
Há sete anos que a vida de Henrique Leitão corre entre as quatro paredes de um dos gabinetes da Academia das Ciências, no Bairro Alto, em Lisboa. Desde que em 2002 a Academia das Ciências de Lisboa e a Fundação Calouste Gulbenkian decidiram lançar-lhe um desafio e convidá-lo para editar a obra completa daquele que é o maior matemático português de sempre e uma das figuras mais proeminentes do pensamento quinhentista.
"Foi o maior cientista que houve em Portugal." Para quem duvida do lugar de Pedro Nunes no panorama intelectual do século XVI, Henrique Leitão recorre sempre a um diagrama de época sobre mestres de álgebra - o frontispício do livro de Matemática do alemão Johannes Luneschlos, de 1649, onde aparece a imagem de Pedro Nunes a par de figuras como Euclides. Está lá, colado numa estante, por trás da cabeça de Henrique Leitão.
"São sete anos visíveis de trabalho", diz o investigador sobre a edição da obra do matemático, enquanto coloca os quatro volumosos livros em cima da mesa: Sobre a Arte e Ciência de Navegar, Tratado da Esfera, Sobre os Crepúsculos e Sobre os Erros de Orôncio Fineu. "E estão mais dois para sair depois do Verão e os outros dois volumes restantes aqui", diz, apontando para dois dossiers vermelhos numa prateleira. "E poderá sair um nono, uma espécie de best of em inglês".
A primeira tentativa de edição das obras de Pedro Nunes, o matemático quinhentista que pensou fora do seu tempo, foi feita na década de 1940 pelo historiador Joaquim de Carvalho. Completaram-se então quatro volumes que nunca foram publicados. O trabalho foi interrompido pela morte de Joaquim de Carvalho em 1958.
Henrique Leitão, físico e historiador de ciência, o segundo português a integrar a Academia Internacional de História da Ciência (o primeiro foi o historiador dos descobrimentos Luís de Albuquerque), pegou no que Joaquim de Carvalho tinha deixado e aceitou o desafio, lançado pela Academia das Ciências e pela Fundação Calouste Gulbenkian para editar, pela primeira vez, as obras completas do matemático. Isso foi em 2002. Seguiram-se dois anos fechado a estudar engenharia naval do século XVI. E depois astronomia teórica. O objectivo era compilar tudo o que desde a década de 1950 se aprendeu sobre a vida e obra de Pedro Nunes para acrescentar ao trabalho de Joaquim de Carvalho. E publicar as obras.
"É um autor muito seco e técnico, tirando alguns devaneios que deixam respirar fundo", diz Henrique Leitão, enquanto folheia aquela que, na sua perspectiva, é a obra-prima do matemático: Sobre a Arte e a Ciência de Navegar. São 800 páginas, 300 delas de anotações.
"Pedro Nunes apresenta a navegação como ciência matemática, funda a navegação como disciplina. A arte era para os pilotos, ele traz a ciência, uma matemática muito avançada, só para os maiores matemáticos da Europa. Não se acredita que a navegação tenha tirado partido da sua teoria, apesar de esta a ter influenciado mais tarde. No princípio do século XVII já Pedro Nunes era o matemático com mais influência na náutica holandesa e inglesa." Talvez por ele pensar fora do tempo, explica Henrique Leitão, a Inquisição nunca se cruzou no caminho do matemático. "Não se preocupavam com uma obra que apenas 10 ou 20 pessoas conseguiam ler."
Nunes internacionalMas a edição da obra de Pedro Nunes tem, para Henrique Leitão, um valor para lá da própria obra: "Toda a gente fala dos livros [de Pedro Nunes, os primeiros quatro dos quais foram recentemente postos à venda], mas isto é a ponta do icebergue. O que é mesmo importante é que este trabalho está a ser valorizado internacionalmente." Nos últimos anos, enquanto a edição da obra estava a ser preparada, aumentou o interesse por Pedro Nunes - e isso traduziu-se num aumento de artigos, livros e conferências sobre o matemático. "Todos os artigos e livros que se publicaram nos últimos sete anos são mais do que alguma vez se tinha publicado e colocam Pedro Nunes na rota das grandes teorias que marcaram a náutica. O impacto internacional foi brutal. Foi dado a conhecer um Pedro Nunes que não se conhecia."
Henrique Leitão debruça-se sobre o ecrã do computador para mostrar listas de correio electrónico de investigadores que estudam hoje Pedro Nunes, redes de universidades que se dedicam à sua obra e convites de congressos por toda a Europa que se debruçam sobre o legado do matemático português. "É um autor científico português que é interessante para a comunidade internacional e isto é consequência directa do trabalho que se começou em 2002. Eu sabia que quando o mostrasse ao mundo ele ia interessar. O provincianismo não tem lugar nesta história. Este homem é internacionalmente interessante. Este é de facto o objectivo que se pretendia alcançar."
Nomes que são referências mundiais da história da ciência - como o alemão Eberhard Knobloch ("o maior historiador de ciência vivo", nas palavras de Henrique Leitão - ficam fascinados com Pedro Nunes. E o norte-americano Larry Ferreiro, o maior especialista mundial em arquitectura naval, apaixonou-se pelo texto de Pedro Nunes sobre "a arte de remar", em que o matemático português chama ignorante a Aristóteles, que também tinha teorizado sobre esta matéria: "Note-se que a teoria de Nunes está muito mais próxima da teoria que hoje se conhece do que a de Aristóteles", escreve Ferreiro num artigo científico.
É a constatação de Henrique Leitão: "Estamos sempre a descobrir que os textos dele foram muito mais importantes do que se pensava."
30 -
eu
, mundo - 15-01-2010 9:28:40
Gostaria de dar os parabéns pela edição da obra.
Que saibamos valorizar o que temos de melhor sem estar sempre a criticar.
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Rui Manuel Antunes Marques
, Barrero ---Portugal - 07-10-2009 0:13:22
Sempre que nós fomos deixados á vontade ou mesmo incentivados,e não impedidos ou travados,fomos capazes de ir muito longe,e isto é uma verdade intemporal,mas o desinteresse e também ás vezes a perseguição foram e são ainda problemas reais para quem pretende fazer alguma coisa de diferente.
28 -
Boaz
, Jerusalém - 27-09-2009 8:23:26
Portugal tem muitos valores, mas dá-lhes pouca importância. As universidades portuguesas são em geral boas, em especial as de ciências e engenharia. Mas o país não dá vazão a tanto licenciado. As auto-estradas, aeroportos e estádios de futebol (e os sonhos megalómanos de fazerem uns Jogos Olímpicos) são mais importantes do que laboratórios científicos que poderiam servir as empresas portuguesas de alta-tecnologia. Vários amigos meus que estudaram em boas universidades estão hoje a trabalhar em Itália e na Alemanha. E outros desejavam sair do país que não dá valor ao que estudaram. Pedro Nunes é um dos génios portugueses. Em Israel, onde vivo, sempre me perguntam do português Isaac Abarvanel, um génio do pensamento judaico da época da Expulsão e um dos mais brilhantes comentaristas das Escrituras. Em Portugal é totalmente desconhecido: nem uma mísera placa a dar um nome a uma rua de Lisboa. É triste quando um povo (neste caso o português) não valoriza o melhor que tem. E apenas se lamenta dos seus políticos e do eterno "sistema".
PS - Porque é que o artigo não menciona o facto de Pedro Nunes ser judeu?
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Cristina
, Lx - 26-09-2009 15:54:56
Portugal deu cartas quando não duvidava de si. Há muito tempo que os portugueses são incapazes de se valorizar. Temos sempre as baterias apontadas para o que vem de fora. A prata da casa nunca presta, a não ser que brilhe lá fora. Sem querer politizar o discurso, o Manuel Pinho apostou em grande nas energias renováveis. É um homem à frente do seu tempo, alguém o reconheceu? Continuamos os mesmos, sempre que alguém se atreve a fazer algo de diferente é posto a ridículo, mas olhamos para os que consideramos nossos superiores com subserviência.
Tenho pena que a política se reduza aos partidos, admiraria o Manuel Pinho pela obra que fez qualquer que fosse o partido a que pertencesse.
26 -
Leandro Coutinho
, Porto - 22-09-2009 1:55:12
Alguns comentadores como Nikita (6-08 / 19.12) relembram -e bem- a marca judaica de Pedro Nunes e o que aconteceu depois aos seus descendentes devido á cegueira da inquisição.. Mas, não se trata de um caso.. Há inumeros, milhares deles.. de portugueses marranos que eram marcantes na ciência e técnica da época.. A expulsão dos judeus é o começo do declinio de Portugal.. Isso está bem documentado na História Económica Portuguesa.. A ascensão da Holanda como potência marítima e colonial, deve-se precisamente ao facto de ter aceite uma comunidade enorme de judeus expulsos da Ibéria.. O seu saber e as suas competencias capacitaram os Paises Baixos a tornarem-se uma potência europeia de par com as que já se tinham afirmado.. (os génios de origem judaica portuguesa estão em todos os anais e em diferentes actividades.. desde o economista David Ricardo ao filósofo Espinosa)..
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ciencia sempre
, ontem, hoje e amanha - 29-08-2009 18:50:04
Claro que é importante publicar e estudar o legado cientifico do passado. É isso a escolaridade. É assim que se criam novos valiosos conhecimentos. Parabéns ao projecto.
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Carla Antunes Rosário
, Cascais - 10-08-2009 9:13:06
PORTUGAL TEM MÉRITO
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Indignado
, Portimão - 08-08-2009 23:27:45
Alguns comentários evidenciam a crise que grassa no mundo... imperdoável que um estrangeiro, a coberto do anonimato se atreva a dizer o que disse, se calhar a viver à custa dos portugueses... porque na terra dela a situação é muito mais grave... Certamente nem ele sabe quem foram ou o que fizeram os seus ancestrais! Que pelos vistos não lhe ensinaram a respeitar os que o acolheram! Isto é a crise geral de valores, quando não se respeita ningém, nem antepassados... nem sequer os familiares mais chegados ... as proximas gerações vão ter que sofrer muito pois nigém respeita ninguém...
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Paulo
, Braga - 08-08-2009 23:07:38
Num país que se maravilha a crucificar os professores, e em que a ministra da educação e o primeiro ministro são os principais mentores, conhecer a obra de Homens como Pedro Nunes é muita areia para as suas cabeçinhas.
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José Duarte
, Wageningen, Países Baixos - 08-08-2009 2:36:53
De facto, quando se vive num quintal que nem chega a 2 milhões de almas e quando se come do bom e do melhor que os fundos da UE têm para oferecer, é bastante fácil de falar! Tente o senhor gerir algo maior do que o quintal onde vive e depois voltamos a falar! Se Portugal fosse apenas a região metropolitana de Lisboa, mais ou menos equivalente em população ao quintal onde o Sr Bruckner faz etender que habita, queria ver aonde ia o senhor buscar motivos para implicar! Iria com certeza, pois há aí qq complexo Freudiano ainda por explicar. Deixei-me que lhe pergunte: nessa Europa culta e civilizada onde o seu quintal se situa, não existem bons especialistas em patologias do foro mental? Tenha um bom dia e cá nos vemos no seu próximo comentário, do qual não tenho dúvida que será tao entretedor quanto os anteriores.
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